”São ideias simples que mudam a vida”

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A principal matéria-prima do empresário Joaquim Caracas são ideias. Depois, plástico e aço, com os quais inseriu nova maneira de construir no Brasil.

Foi quando o suporte de papel higiênico caiu no chão que Joaquim Caracas teve a ideia do seu primeiro produto patenteado – um sistema de ganchos para encaixe de lajes. Já seu hotel de plástico (Vale das Nuvens) começou a nascer numa caminhada na praia. As ideias parecem surgir naturalmente, mas ele deixa claro que coragem e persistência são fundamentais a um inovador.

OP – O senhor disse que tinha menos tempo de empresa que as outras. Então, houve preconceito pelo senhor ser cearense?

Joaquim – É lógico que existe preconceito. Mas como nós temos embasamento técnico, às vezes, eu vou para uma reunião que era para durar três horas e fico até à noite com o cara. E, hoje, o celeiro da protensão no Brasil é o Ceará. Hoje, se você falar de protensão, a referência vai ser o Ceará. Então, tem um preconceito inicial, mas essa barreira é quebrada por causa do conhecimento. Hoje, a Arcelor Mittal é nosso parceiro. Ele é o maior grupo siderúrgico do mundo e consegue muitas das reuniões para nós. Quando chega e vê que é do Ceará, tem preconceito. Mas, você vê quando a Arcelor começa a falar e mostrar as coisas que fazemos, isso aí deixa de existir. Hoje estamos começando nossa primeira obra na Bolívia. A Arcelor quer chegar em toda a América Latina e eles levaram a gente para lá, demos cursos. O país parece o Brasil há 30 anos. Vai ser a primeira obra internacional da Impacto Protensão.

OP – Que conselho o senhor dá para quem quer inovar e enfrenta a barreira da falta de capital?

Joaquim – Você inovar, às vezes, é difícil. Até dois anos atrás, toda essa parte de inovação da empresa estava ligada a mim. Agora, tenho de ir para as obras, tenho que fazer tantas coisas que acabo não tendo o tempo necessário para fazer. Hoje, estou em uma situação em que banco minhas inovações e existem muitos erros e acertos. Então, só vai para frente quem tiver coragem de errar, porque, a maioria, quando aparece o primeiro obstáculo, já recolhe o trem de pouso. Na minha primeira patente, por exemplo, peguei uma ideia daquele suporte de papel higiênico (logo no início da Impacto Protensão, a primeira patente foi de ganchos usados para encaixe de lajes, ajudando a fixar a estrutura). Entrei no banheiro e estava tão apressado que, quando puxei o papel higiênico, o suporte caiu. Quando o suporte caiu na minha frente, vi uma maneira de adaptar aquele suporte para o que eu estava fazendo, pedi a patente e consegui. Se eu não tivesse tido esse momento, tão simples, talvez não teria surgido a ideia. Depois fui fazer a casa de plástico e aí me chamaram de doido. Hoje até hotel de plástico (Vale das Nuvens) já fiz.

OP – Soube que o hotel de plástico é um dos seus orgulhos. Como foi que o senhor teve essa ideia de fazê-lo?

Joaquim – Um dia eu estava andando em Aracaju (SE) e vi um painel de madeira com casas de São João. Aí estava sentado na praia, saí andando, tive a ideia de que era possível fazer uma casa de plástico, comecei a fazer o protótipo e deu certo (2008). Na época, tinha uma engenheira aqui que tinha um relacionamento com a Coelce (Companhia Energética do Ceará), que estava lançando aquela ideia de trocar lixo por energia. Aí eles vieram me procurar. Outra coisa, quando tive a ideia da casa de plástico, fiquei com aquilo na cabeça. Era uma sexta-feira de feriado, peguei uns painéis de plástico, umas madeiras e passei a sexta, o sábado, o domingo e terminei o cubículo. Aí fizemos para a Coelce, para canteiros de obras e levei para a UFC para fazer todos os testes lá. Na reunião, questionaram equipamento para ter alguma rotatividade e resolvi fazer um hotel. O pessoal me falava: “Rapaz, isso não vai dar certo, não vai vingar”. Hoje, na região, é o número um. O hotel tem três anos e já foi premiado em 2014. E é que o pessoal dizia que plástico é ruim, não presta, derrete. Lá em Guaramiranga os hoteleiros diziam que eu estava ficando doido.

OP – O senhor já foi até premiado pelo hotel, recebendo o prêmio das mãos da presidente Dilma Rousseff…

Joaquim – Fui premiado em 2011 pela presidente, no Prêmio Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) de Inovação. Tenho até foto com ela e dei um voucher do hotel para ela. Mas até hoje ela não apareceu. Ela tinha como obrigação mandar pelo menos uma pessoa. Agora vou receber prêmio novamente dela, porque estou entre as três empresas mais inovadoras do Brasil. Estou levando a foto de 2011 e vou chegar para ela e dizer assim: “Olha, eu vou te dar mais uma chance. Em 2011, eu fui premiado, entreguei o voucher do hotel e a senhora não foi. Além de não ter ido, a senhora não teve coragem de mandar outra pessoa”. Ela vai me botar para fora, mas eu vou dizer (risos). Nesse prêmio de 2014, cada uma das empresas mais inovadoras ganhou R$ 250 mil. Agora vai ter disputa da colocação dos três, que vai ser anunciada pela Dilma e o primeiro lugar ainda vai ganhar mais R$ 250 mil. Só que era para ter sido anunciado em dezembro e já estamos em maio.

OP – Ainda tem algum sonho que o senhor ainda não realizou e gostaria de realizar?

Joaquim – Estou fazendo vinícola em Guaramiranga, no hotel. Estou plantando uva, fazendo irrigação de gotejamento e pesquisando as espécies. Já estão me chamando de doido de novo. Meu projeto é fazer do hotel um castelo, para fazer casamentos lá. Aí quem for casar vai ser em um castelo. O chique vai ser casar em Guaramiranga. Lá no hotel também tem um visgueiro e eu pesquisando vi que o maior visgueiro do Brasil é em Maragogi (AL). Contratei o pessoal para medir e vi que o nosso é maior que o de lá. Vou apenas pedir a Maragogi para riscarem o primeiro lugar e colocarem o segundo. É uma besteira, mas já chama atenção para o hotel.

OP – O senhor trabalha e mora em Fortaleza, mas ainda tem laços com Guaramiranga ou pretende voltar para lá?

Joaquim – Minha esposa (Antonieta Caracas) vive querendo voltar para lá. Adora o hotel. Mas vou muito lá, não só pelo Vale das Nuvens, mas porque eu estou ajeitando a cidade de Guaramiranga. Ajeitamos a Prefeitura, praça, fizemos escola, ajeitamos tudo. Ano passado, peguei os 26 melhores alunos do 1º ano do Ensino Médio da Rede Pública de Guaramiranga. Todo sábado eles têm aula de português, matemática e uma palestra. No final do mês, o aluno que tem a melhor frequência leva R$ 100 e, de cada turma, há vaga para cinco estudantes cursarem Medicina, não interessa se é na faculdade particular. Vamos custear. Vai ser nosso programa Mais Médicos. Quando esses alunos estiverem fazendo Medicina, todo mês, assinarão uma promissória. Para resgatar a promissória, ou bancarão outro aluno ou prestarão serviço em Guaramiranga no final de semana. Só para você ter uma ideia, ano passado, dos 26, 17 fizeram Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e todos passaram. Então, se tivessem no 3º ano, todos estariam na faculdade. Outra coisa que fiz lá: agora, nesse mês, quem for comer um milho cozido, vai comer milho cozido na água mineral. Fizemos uma placa: “Para preservar a saúde dos turistas, esse milho é cozido com água mineral”. Quando perguntei como estava a venda, disseram-me que tinha melhorado. Quer dizer, são ideias simples que mudam a vida das pessoas.

OP – O que sua família diz de suas inovações? Eles apoiam?

Joaquim – Eles me apoiam sim. Às vezes, chegavam a duvidar, a dizer que não dava certo. Mas, por exemplo, hoje, tem a minha esposa que trabalha comigo. Ela me deu muito apoio e me ajudou muito nessa parte financeira. Tenho minha filha Rebeca que trabalha lá na Impacto Protensão. Ela tem 29 anos, é advogada e trabalha um expediente lá. E tem a Fabíola, que tem o espírito inovador igual ao meu. Ela tem 27 anos, se formou em engenharia civil, igual ao pai. Eu já estava preparando tudo para ela assumir aqui, trabalhava comigo, mas o que foi que ela fez? Resolveu montar uma doceria, a Magus. Mas não tem problema, não. Eu acho que se ela acha que é o melhor para ela, tem que ir em frente mesmo. Era ela quem estava até no hotel, administrando, mas com a Magus vai bem menos lá.

OP – Mas foi o senhor o responsável por estimular a inovação na Fabíola?

Joaquim – Tem uma influência, mas já tem que estar no DNA. Ela sempre gostou de vender as coisas como eu fazia quando era pequeno. A Fabíola levava os trabalhos para vender no colégio, que os amigos não faziam. Também levava bolo para vender no colégio. E quando ela foi fazer intercâmbio nos Estados Unidos, pensa que ela quis ficar parada? Foi ser garçonete para conhecer como é que funcionava lá.

O POVO – E com a equipe da sua empresa, como o senhor faz para estimulá-la a ter ideias inovadoras?

Joaquim – Na realidade, os meninos que estagiam aqui comigo, do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), são bons, mas não têm experiência. Então, pego os meninos e dou tarefas para eles. Além disso, há dois anos eu abri o departamento de P&D (Pesquisa & Desenvolvimento) para estimular a inovação. Outra vantagem também é que hoje eu tenho o departamento com engenheiros formados do ITA. Hoje, se você pegar a Impacto e ver todas essas inovações que ela fez nos últimos dois anos, eu diria que ela foi bem oxigenada. Porque tem o pessoal lá o dia todo respirando só isso. Enquanto antes era eu sozinho para fazer tudo. Hoje já conseguimos reduzir 85% do uso de madeiras nas obras. Mudamos muito a construção civil.

O POVO – Nesses 18 anos de empresa e mais alguns de experiência, já aconteceu de tentarem roubar suas ideias?

Joaquim – Não. Inclusive nós temos centro de treinamento em que eu abro tudo. Eu sempre digo que se o cara quiser me copiar vai perder um pouquinho de tempo, porque sempre estou melhorando o que faço. Quando ele chegar lá eu já vou estar um passo na frente. Para imitar a gente vai ter que estar capitalizado. E se tiver vai ter de estar com embasamento técnico muito bom. Dificilmente você vai encontrar essas duas coisas. Por exemplo, hoje eu sou palestrante do ITA e, às vezes, vou dar palestra para os meninos da engenharia e eles são muito novos e acham que o que vale é a experiencia. Eu digo para eles o exemplo do mestre de obras. O mestre de obras é muito inteligente porque ele começou como servente e ele se destacou em relação aos outros. Mas o problema do mestre de obras é porque ele não tem o conhecimento. Então, se você pegar o engenheiro recém-formado, inexperiente, mas interessado, com seis meses ele vai botar o mestre no bolso.

Fonte: http://www.opovo.com.br/app/opovo/paginasazuis/2015/05/18/noticiasjornalpaginasazuis,3439591/sao-ideias-simples-que-mudam-a-vida.shtml

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